domingo, 31 de julho de 2011

O Quereres - Caetano Veloso

Estava assistindo uma aula de Português do Professor Diogo Arrais, cujo tema falava sobre derivação imprópria, e ele colocou a música O Quereres de Caetano.
Vou tentar descrever o que foi dito: Á primeira leitura, é pouco provável que um leitor ou ouvinte que busque atingir a significação da canção “O quereres”, de Caetano Veloso, (apenas a partir do sentido literal de suas palavras), consiga depreender dele a sua coerência, ou, de outro modo, consiga elaborar a significação que estaria nele. Tudo parecerá caótico e sem sentido, visto que as palavras estão dispostas como se não tivesse qualquer relação umas com as outras. No título da canção “O quereres”, o poeta utiliza o recurso semântico-sintático de substantivar o verbo querer por meio de um determinante. No entanto, curiosamente no aspecto morfossintático, a forma verbal do infinitivo é flexionada, "quereres", e a ela se combina extravagantemente um artigo definido no singular.
Nessa época, o cantor encontrava-se na sua mais alto expressão. Percebe-se que a forma do poema,  ou seja, essa música é uma especie de atualização Camoniana sobre a indefinição amorosa: ..."Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que doí e não se sente". Aqui o Caetano a atualizou, no formato e no conteúdo, é um poema muito bem composto, digamos metricamente com estrofes camoniana, estrofes de oito versos, com rimas semelhantes ao adotado por Camões em  Os Lusíadas, isto é, seis oitavas (6 estrofes de oito versos) em decassílabo (10 sílabas poéticas), cuja tônica cai na sexta sílaba, mais um refrão em redondilha maior ou heptassílabo (sete sílabas poéticas).
Essa música tem uma linguagem diferente da linguagem comum. É uma poesia com esse espaço do mistério, da magia, do inefável aquilo sobre o qual não se pode ver nem falar alguma coisa, é sentimento, é sensibilidade, é deleite, é êxtase.
Vamos tentar interpretar esse poema, que já é bastante sugestivo "O Quereres", evidentemente que é mais uma criação do cantor e compositor, aqui é a superação da própria língua com armas da própria língua ele coloca um artigo antes de um verbo no infinitivo, querer eu, quereres tu, quereres ele. Ele substantivou um verbo que esta no infinitivo "O Quereres", como se dissesse o fato de você querer uma coisa e eu querer outra, então juntando o nosso querer deu Quereres, mas aí ele singularizou o querer teu com o querer meu, o querer de cada um. Onde queres revolver eu sou coqueiro, onde queres dinheiro eu sou paixão". Evidentemente, se interpretarmos essas palavras como estão no dicionário vamos perder a riqueza da sua interpretação, do seu significado, do que quer dizer o poema, então precisamos ir para arte com o conhecimento de mundo, com meu conhecimento líguistico e aquilo que o poema pode estar querendo dizer ou não dizer. Então temos as palavras revolver, coqueiro, dinheiro, paixão, descanso, desejo, onde sou só desejo, quereres não, eu quero uma coisa tu queres outra, tu queres o oposto. Magnifico!! o que nós vimos nessa letra da música é um jogo de antítese, de contradições, com palavras que são antônimas, com significado diferente do outro. Metáfora sobre o amor, sobre o desencontro amoroso, por isso ele vai dizer Bruta flor do querer.
O Amor é um sentimento contraditório de desencontro. E realmente, se pararmos para pensarmos a nossa vida é uma antítese, na natureza que nos cerca tudo é feito por contrastes, luz e sombra, vida e morte. Então o que o Caetano faz é definir o amor pelas contradições, definir o querer, o desejo amoroso pelas suas próprias contradições. Se no amor todos fossem iguais talvez não aconteceria, na diferença pode acontecer o amor verdadeiro. A intenção de dizer esse poema...Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão, Onde queres o sim e o não, talvez, E onde vês, eu não vislumbro razão, ...é maravilhoso ver esse jogo de palavras antitético e o uso das conjunções feitos aqui pelo Caetano, para definir o querer de um o querer de outro, mas a soma do meu querer com o querer do outro pode dar um querer único, querer conjunto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário